Audiodescrição com dublagem: a acomodação de desafios

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1. Vocalizar para descrever

Descrever cenas, em se tratando de películas, para a camada de áudio é em si uma espicaçada e tanto. O lençol extra é não cair na tentação de ser o próprio ator quando, para além da descrição visual – termo que, confesso, soa-me mais adequado -, faz-se necessário dublar o filme.

Atuando nas pausas e efeitos sonoros ou trilhas, invariavelmente respeitando o texto original, o paradoxo da descrição visual é enriquecer a experiência de pessoas com deficiência visual justamente nas breves oportunidades para tal – sobretudo em se tratando da escola de cinema estadunidense. Aqui jaz a incongruência do audiodescritor: abrimos o buquê de uma garrafa de vinho cujo sumo jamais é sorvido por inteiro, fazendo sala para a imaginação do ouvinte. A impossibilidade natural de uma descrição completa, por maior esforço, confere concomitante accessibilidade, imprecisão e ideação. Todavia, no ato de abertura do buquê, perfumamos o mundo de pessoas com deficiência visual e permitimos que elas discutam em pé de igualdade com pessoas cuja deficiência é oculta – nós.

2. O dublador não chegou

Por questões de logística ou orçamento, nem sempre é possível dublar um filme, sendo muita vez papel do audiodescritor atuar nos diálogos. É função, neste caso, imprimir as emoções das falas sem, no entanto, transformar-se no ator – trata-se de uma tênue linha que impede o audiodescritor de ser o ator, porém autorizando-o a interpretar. Tendo em mente que o ouvinte recebe dois estímulos (o som ambiente e o fone de ouvido), urge o triângulo amoroso entre roteiro, vocalização e áudio natural da obra.

Quando a deficiência deixa de ser obstáculo
3. A maravilha da experiência

O universo de pessoas com deficiência visual é imenso, abarcando aquelas que carecem de memória visual por já terem nascido cegas ou ficado cegas na primeira infância, que possuem memória visual, que têm baixa visão, problemas de visão, e em cada qual há níveis e necessidades próprias. Em um cenário ideal, todas elas chegariam 30 minutos antes da exibição e teriam explicações sobre roteiro, figurino, ambientação, trocas de cena – isso deixaria o já citado buquê ainda mais aromático.

Quando é chegada a hora da exibição, após detido estudo do roteiro e ensaio, percebe-se um avançado enriquecimento na experiência de visualização da película, já que:

1. A plateia com baixa visão, que geralmente ocupa as primeiras fileiras, não precisa ler a legenda e pode focalizar na tela;
2. A plateia sem visão reage às descrições com sorrisos, mãos à boca, susto;
3. A plateia com visão que opta pela AD dá-se conta de elementos que sua visão pode ter deixado escapar.

4. O fim é o começo

Por conta da mais aproximada igualdade, pessoas sem e com visão podem, conforme já dito, debater a obra. Aquele silêncio pós fim é sucedido por murmurinhos, comentários, sorrisos, perguntas que nada fazem além de engrandecer a experiência dos, agora de facto, telespectadores.

Carlos Alberto Abelheira é um dos Coordenadores de AD - Audiodescrição do Catálogo Premium de Intérpretes e Tradutores
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