Carnaval, carnavais – uma ofegante epidemia

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“...uma ofegante epidemia... que se chamava carnaval... o carnaval, o carnaval...”

(Chico Buarque – Vai passar)

“Quem me dera viver pra ver, e brincar outros carnavais... com a beleza dos velhos carnavais... que marchas tão lindas, e o povo cantando seu canto de paz...”

(Vinícius de Moraes e Carlos Lyra – Marcha da quarta-feira de cinzas)

Não quero ser saudosista, mas é inegável que o tempo passa e as coisas mudam. Afinal, já perguntava Mario de Andrade, “Teria mudado o natal, ou mudei eu?”, no conto ‘O Peru de Natal’.

O fato é que mesmo hoje, com o retorno do carnaval de rua, com seus blocos e foliões, tudo é diferente. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia…” (Lulu Santos – Como uma onda)

E é normal. Assim como num rio que corre nunca é possível se banhar duas vezes na mesma água. Mas podemos fotografar, filmar ou simplesmente nos lembrar de um momento determinado do rio, ou do carnaval no tempo.

Paulinho da Viola – Foi um rio que passou em minha vida

Lembro como era o carnaval em São Paulo quando a cidade ainda era quase uma província e alguns diziam que era “o túmulo do samba”. Maldade. Tinha samba, sim. Sempre teve. Um samba paulista, diferente do carioca. E carnaval também.

Adoniran canta “Vila Esperança”, 2o. lugar no Festival de Música Carnavalesca no auditório da TV Tupi, 1969. Acervo Adoniran Barbosa/Arquivo Estadão/AE

Não conheci o carnaval antigo, aqueles do início do século passado, com corso pelas ruas da Barra Funda, Campos Elíseos e depois na Av. Paulista. Não tenho idade para tanto e nem sei se muitos ainda têm. Mas ainda tenho a vaga lembrança dos carnavais dos anos 1960, talvez avivada por fotos, relatos juntados à minha memória de criança.

O carnaval se passava nos salões, havia bailes de carnaval, onde se cantavam marchinhas compostas especialmente para a época. Era de lei se fantasiar para “brincar” ou “pular” carnaval, como se dizia. Adultos e crianças. Eu tinha meu pierrô, sempre manchado e apaixonado. Em volta eram bailarinas, colombinas, piratas, baianas, havaianas, odaliscas, cheques árabes. Pulava-se nesses salões com orquestra tocando, cantor e tudo. Matinê e madrugada. Confete, serpentina e… Lança, lança perfume!

Mulher em uma festa de carnaval. São Paulo, 9 de março de 1961. Foto: ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO

Nas ruas, a criançada também brincava com confete e serpentina e bisnaguinha de água ou seringa, como chamavam, com água ou com “sangue de diabo” (sempre associado ao carnaval) preparado com papel de seda vermelho de molho na água, ha, ha, ha…

E depois, no fim da tarde passavam os cordões. Na época, em São Paulo, não havia, ou não se chamavam escolas de samba; chamavam-se cordões. E cada bairro tinha o seu, que depois deram origem às atuais escolas de samba paulistas. O que eu via passar era o cordão do Lavapés, que era no bairro da Liberdade. Já desde dezembro os cordões ensaiavam seu samba e preparavam suas fantasias, desfilando nas noites de janeiro, depois do ano novo, pedindo “apoio cultural” aos moradores do bairro. E assim a gente aprendia a sambar. O cordão do Lavapés tinha passistas incríveis como a Noêmia, lembrada até hoje. E sambistas exemplares, como o Germano Matias, com sua frigideirinha, com a qual batucava. No domingo de carnaval, subiam a rua da Glória, passavam pela av. Liberdade e iam para o ginásio do Ibirapuera desfilar. Sim. Era lá que os cordões desfilavam. Lá dentro, lugar fechado com o povo nas arquibancadas. E gente já via pela televisão. Tentando reconhecer quem a gente conhecia. Um barato…

Cordões, escolas de samba e ranchos desfilam no Vale do Anhangabau – 1969 Imagem: Folha de São Paulo

Havia também uma competição muito cruel. Era no chamado Tablado, montado também no Ibirapuera. Era uma prova de resistência. Consistia em casais dançando sem parar, noite e dia. As duplas iam saindo ou caindo uma a uma durante os dias de carnaval. O casal que resistisse até o fim era o vencedor. Idêntico a Jane Fonda e Michael Sarrazin em a Noite dos Desesperados  – They Shoot Horses, Don’t They?, de Sydney Pollack.

Aos poucos os salões foram acabando, os cordões entrando em crise e os blocos e o carnaval de rua morrendo… Quem quisesse ou pudesse que fosse para o Rio ou ao menos para o interior. Algumas cidades do interior de São Paulo tinham carnavais bem famosos, como Rio Claro, por exemplo, conhecido como o melhor. Ou Santos e São Vicente. Carnaval e mar sempre combinaram. Mas na capital mesmo… nada.

Definhou, definhou, até que acabou.

Voltaram primeiro as escolas de samba. Evolução dos antigos cordões. E o carnaval de São Paulo começou a existir, adotando os moldes do carioca: desfile na avenida, geral e camarote, a gente faz o que pode.

Império da Casa Verde – campeã do Carnaval de SP – 2016 (Rafael Neddermeyer/LIGASP)

Agora, voltam os blocos, também seguindo o revival carioca. Pululam blocos pra todo lado. Na verdade, já haviam feito uma aparição no fim dos anos 70, com várias bandas, no centro e nos jardins, a Banda Bandalho, a Banda do Redondo, a Banda do Supremo. Depois arrefeceram. Agora o movimento pegou de novo. Pinheiros, Vila Madalena, Pça Roosevelt e bairros em geral. Tá esquentando. Se não espirrarem água fria… rs, rs, rs…

Mais:

Como uma onda no mar (Francês)

Renato Russo - Wave / Come fa un'onda (Italiano)

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Colaboração: Liu Lopez
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