Cabelos X Química: tendência ou moda passageira?

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Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada…

No Poo e Low Poo – Um consumidor pode não ter ouvido falar ainda dos termos, mas o profissional da indústria de cosméticos provavelmente acompanha a tendência de busca cada vez maior no varejo por produtos com este ‘selo’.

A expressão – redução de ‘shampoo’ – cria um trocadilho com a palavra  ‘poo’ (do inglês). Assim ficou conhecida a técnica original de abolir qualquer química na higienização e no tratamento capilar. Já ‘low poo’ refere-se ao uso menos frequente de xampus e apenas de química ‘fraca’. Ambas as técnicas preveem a utilização de produtos mais naturais e com menos ingredientes considerados agressivos aos cabelos; também recomendam aposentar chapinhas e secadores para modelação.

A origem – Lorraine Massey, cabeleireira inglesa, percebeu que os cabelos cacheados – como os dela – apesar de necessitarem de mais cuidados, não recebiam a devida atenção da indústria, nem dos salões. Com sua equipe, desenvolveu o Curly Girl Method ou o Método da Garota Cacheada, publicado no livro Curly Girl (garota cacheada, em tradução livre do inglês). Em 2001, fundou a DevaCurl – marca que ganha adeptos fieis mundo afora, desde então.

Lorraine Massey

Debaixo dos caracóis… – a lavagem fica por conta do ‘co-whash’: lavagem por condicionador (conditioner washing). Evita-se o uso de pentes, mais ainda de escovas, trocam-se toalhas felpudas por algodão e recomendam-se toucas e fronhas de cetim. Tudo para cuidar dos cachos com suavidade e assumi-los, rebelando-se contra a ‘ditadura dos lisos’.

Resumo do método original – sem petrolatos (geralmente, presentes em condicionadores, cremes e finalizadores) – silicones, por exemplo; sem parabenossulfatos; Porém…

A polêmica – muito do método original, descrito na 1a. edição, não é exatamente o que se propagou pelo mundo. De 2002 para cá, a indústria de cosméticos evoluiu, o radicalismo inicial foi atenuado e os consumidores buscam encontrar os produtos com os quais melhor se adaptam. A recomendação passou de ‘não usar’ a ‘evitar’ alguns componentes; os tipos de química foram classificados entre ‘fortes’ e ‘fracos’. Assim, o no poo recomenda evitar qualquer shampoo e sulfato, e os petrolatos (parafinas, óleos minerais e silicones); já o low poo recomenda baixa frequência de sulfatos fracos e evitar sulfatos fortes; silicones solúveis são ‘liberados’, os insolúveis devem ser evitados. Tinturas ou colorações não devem conter amônia, etc.

Parabenos (usados como conservantes) são ‘liberados’, embora haja tendência de consumidores de evitar seu excesso, por conta de algumas pesquisas indicarem uma possível relação entre eles e perturbações endócrinas, além de câncer .

Resultados – as técnicas, adaptadas em todo o mundo, de acordo com as características locais e principalmente, de cada cabeleira – de lisas a totalmente cacheadas ou crespas – parecem agradar consumidoras e consumidores em número crescente.

No Brasil – enquanto algumas empresas já investem pesadamente no fião em crescimento, outras parecem usar a escova no sentido contrário ao crescimento do fio… Empresas que possuíam diversos produtos presentes nas listas de ‘liberados’ (para no ou low poo), acrescentaram petrolatos em sua composição, de uma hora para outra. Enquanto isso, outras marcas inscrevem em seus rótulos os selos ‘liberados para…’ (no ou low poo) ou ‘sem parabenos’, ‘sem sulfatos fortes’, ‘sem petrolatos’.

Outras, ainda, lançam diversos produtos, e até linhas totalmente devotadas ao segmento, com nomes bastante criativos, inclusive: ‘Tô de cacho’, ‘Morte súbita’, ‘Acachonados’, ‘Garota veneno’, ‘Comigo ninguém pode’, ‘Meu cacho, minha vida’, ‘Santo black’, ‘Tudo de bom’…

Há polêmica quanto à classificação dos fios.   O quadro é apenas um exemplo de classificação.

Na net – há alguns anos, na lacuna da indústria, blogs e videologs se multiplicaram, ajudando a divulgar as técnicas. Muitos testam produtos, mostrando sua aplicação em frente a uma câmera e/ou comentam em tutoriais sua percepção do produto e da técnica experimentada. As blogueiras e blogueiros de maior sucesso geralmente são ponderados: apesar dos termos ‘proibidos’ ou ‘liberados’ facilitarem a compreensão, eles alertam que para se beneficiar das técnicas, não é necessário radicalismos como ‘nunca mais usar química’ e comportamentos semelhantes. Afinal, cada cabeleira, uma sentença…

Redes sociais – grupos foram se formando e crescendo, trocando dicas de receitas de H, N e R (hidratação, nutrição e reconstrução), listas de produtos ‘liberados’ e ‘proibidos’, tirando dúvidas sobre novos produtos ou novas composições, mostrando a evolução das madeixas em transição – de progressiva para natural, por exemplo – colorações etc. Os grupos funcionam como apoio para seus membros: ao mesmo tempo que trocam informações e fotos, incentivam participantes a assumirem suas cabeleiras, a realizaram um corte radical caso desejem se livrar de uma química mais agressiva, mas não tenham coragem, e até mesmo a voltar à química, se a angústia é muito grande em determinado período.

‘Morte súbita’ – como a tendência, tanto aqui como fora do país, parece ultrapassar os consumidores descabelados (cabeças insatisfeitas com os resultados dos produtos comuns) e os enrolados (cacheados e crespos), empresas do ramo que insistirem em ignorar essa tendência, correm o risco de perder uma boa fatia do mercado. Claro, se for por opção estratégica, provavelmente não arrancarão os cabelos…

Para saber mais:

Movimento contra xampus industrializados ganha expressao; veja alternativas. - Matéria criteriosa de 2014 já apontava a tendência e alertava para os cuidados que se deve ter com 'receitas caseiras'.
How to Follow the Curly Girl Method - Principais dicas para seguir o método (Inglês).

A youtuber Mari Morena é uma das principais referências do assunto no Brasil:

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