São Paulo, sons, peixes e a Semana Santa

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Que São Paulo é uma cidade barulhenta, ninguém discute. Há vários sons característicos. Melhor seria dizer ruídos. Hoje são infernais. Mas aqui quero falar de um deles apenas, bem específico. Deixando-me levar por eles, lembrei que nem sempre foi assim. Um dia esses sons já foram regulares e identificáveis, chegando a ser familiares e, hoje, sua lembrança é aconchegante.
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Peixes

Por exemplo, quando eu dormia no quarto de baixo de nossa casa, cuja janela abria para a rua, regularmente eu era acordado pelos gritos de Pê-cherôo!  Pêe-chêeeero! Era o peixeiro, que passava empurrando sua banca sobre rodas, cheia de peixes, camarões  mexilhões distribuídos sobre abundante gelo. Ouvia primeiro seus gritos vindo de longe, até ele parar na porta de casa, a chamado de minha avó. Aí ouvia a conversa, os nomes de peixe: garoupa, sardinha, robalo, cação, cavalinha, ovas de tainha, discussão do preço, até que começasse o zunido da afiação das facas e da descamação. No almoço comeria peixe. Cuidado com as espinhas. – tire as espinhas para ele, dizia sempre minha avó.  Melhor não comer, tem espinha. Mas peixe é bom. Precisa comer. Eu comia. E gostava.

A Semana Santa

Falar dos peixes fez-me lembrar da semana santa. Da sexta-feira. Da religião. A família era católica e praticante. Havia duas igrejas que freqüentávamos, além das missas mensais obrigatórias no colégio marista: a Igreja Nossa Senhora da Paz, na rua Glicério e a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, na rua Tenente Azevedo, na Aclimação, onde moravam meu tio e primos. Geralmente, ia com meu pai à missa da colônia italiana na Igreja da Paz, às 10h. Até 1963, as missas eram celebradas em latim. Na missa das dez o sermão era feito em italiano. Havia sempre um padre enviado especialmente por Roma para as paróquias da colônia. Atualmente, essa missa é rezada em castelhano, dirigida aos imigrantes latino-americanos. Apena uma vez por mês parece-me que ainda é em italiano. Há os coreanos também, hoje uma grande colônia no bairro e na cidade. Nos últimos anos a igreja da Paz tem recebido e abrigado uma grande quantidade de refugiados vindos do Haiti, depois do terremoto e das perturbações políticas pelas quais passou o país; além de imigrantes africanos. Assim ela confirma e continua sua vocação de igreja dos imigrantes.

Os Ramos

No Domingo de Ramos, domingo que antecedia a Páscoa, ia-se à missa na igreja da rua Glicério, e depois passávamos na casa da tia Julia, que morava na mesma rua, oferecer os ramos de palmeira e oliveira bentos pelo padre para ela, para nonn’Antonia (Man’Tonha para alguns, numa perfeita dualidade ítalo-brasileira) e tio Dudu. Essas “palmas”, como eram chamadas as folhas, eram colocadas atrás dos quadros religiosos das casas. Em dias de tempestades, eram queimadas na chama de alguma vela, para Santa Bárbara, invocando a proteção da santa contra raios e trovões. Esse ato lembrava tanto as antigas oferendas feitas aos deuses-lares romanos quanto o hábito de cultuar Iansã, identificada a Santa Bárbara pelos escravos impedidos de demonstrarem a fé em seus orixás. Um perfeito exemplo de sincretismo religioso. Quem conhece Nápoles, visitou Pompéia, pode perceber a ligação entre a religião “pagã”, primitiva, e o culto popular cristão, tolerado pela Igreja desde o início e reproduzido aqui pelos escravos africanos obrigados a ocultar suas tradições.

As igrejas

Na sexta-feira santa, muitas moças e senhoras costumavam percorrer sete igrejas. Geralmente, eram as igrejas do bairro, as de sua devoção particular ou as mais centrais. No caso familiar, além das igrejas já citadas, eram as igrejas centrais como a de São Gonçalo, a de São Francisco, a de Santo Antonio na Praça da Sé, a Igreja do Carmo, a da Martiniano de Carvalho, a dos Enforcados,e a do Santíssimo Sacramento, no bairro da Liberdade, entre outras. Outro fator importante eram as procissões: a dos sete passos, realizada por muitas igrejas na tarde do domingo de ramos, levando a imagem de Jesus carregando a cruz, com suas sete paradas tradicionais. Mas as mais concorridas eram as da sexta-feira da paixão, a do Senhor morto, seguido pela imagem de Nossa Senhora das Dores e da Verônica, que exibia o rosto do Cristo estampado no pano com que havia enxugado seu rosto.

As procissões e a Verônica

A procissão da Igreja da Paz passava por nossa rua e algumas famílias cobriam os parapeitos de suas janelas e sacadas com toalhas brancas e os enfeitavam com flores e acendiam velas, principalmente nos pontos onde a procissão parava. A procissão da Igreja dos Remédios atraía muitas pessoas porque, além das crianças vestidas de anjo e do Santo Antônio de promessa, contava com a presença de uma misteriosa personagem. Era uma cantora que interpretava a Verônica. Essa mulher chegava à igreja já vestida de preto e com o rosto coberto por um véu igualmente preto. Era dona de uma voz límpida e afinada, um soprano de grande qualidade. Entre as duas fileiras de anjos, ela seguia a procissão, acompanhada por dois acólitos que carregavam um banquinho devidamente provido de alças dos dois lados. Em cada parada da procissão, o banco era colocado a sua frente, ela subia e cantava sua ária, O vos omnis, ao mesmo tempo em que desenrolava o pano com o rosto do Cristo estampado. Terminava o canto no exato momento em que também terminava de enrolar de volta a estampa. Descia do banco e continuava sua marcha. O momento era solene e contrito. Depois de se ouvir sua voz o silêncio dominava, até que se ouvia a matraca batida pelo sacristão chamando para que se prosseguisse. Às vezes o garoto vestido de Santo Antônio se distraia e continuava parado, olhando para trás, atraído pelo mistério. Ouvia-se então a voz da condutora dos anjos chamá-lo, com no seu sotaque característico: “Eh, Sant’Andò!” Depois, ouviam-se apenas os passos das pessoas antes que o padre começasse a puxar as orações. Nunca se soube quem era a Verônica.

Na madrugada do domingo, saía a procissão da ressurreição, depois da qual as crianças podiam procurar ou receber seus ovos de Páscoa e se preparar para o almoço.

Igreja Nossa Senhora da Paz – Glicério, SP
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