Tzvetan Todorov: o estrangeiro em nós

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Ser civilizado não significa haver cursado estudo superior ou ter lido muitos livros (...): todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer atos de absoluta barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos diferentes dos nossos”

Trecho do discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias por sua contribuição às Ciências Sociais, em 2008

Janeiro levou Bauman; fevereiro, Todorov.

Ambos, fundamentais no pensamento contemporâneo.

Tzvetan Todorov (01/03/1939, Sófia, Bulgária – 07 de fevereiro de 2017, Paris, França), filósofo e linguista radicou-se em Paris em 1963. Da experiência no país de origem, herdou total aversão a qualquer tipo de totalitarismo. Com o amadurecimento, observador atento da sociedade, e com a bagagem da Literatura, solidificou sua posição humanista, criticando também as mazelas e os riscos da democracia e a ideologia do Iluminismo.

"(...) num primeiro momento, eu acreditei que a liberdade era um dos valores fundamentais da democracia; agora, percebo que certo uso da liberdade pode representar um perigo para a democracia. Haveria aí um indício de que, hoje, as ameaças que pesam sobre ela não vêm do exterior, da parte daqueles que se apresentam como seus inimigos, mas sobretudo de dentro,de ideologias, movimentos ou gestos que alegam defender os valores democráticos? Ou de que os valores em questão nem sempre são bons?"

O trecho é de “Os Inimigos Íntimos da Democracia” (2012), obra em que o autor acusa a farsa das justificativas (armas de destruição em massa, ‘autodeterminação dos povos’…) na invasão do Iraque e outras ações da coalizão, bombardeios da OTAN, pós-revolução na Líbia,  outros episódios, assemelhando-os ao pior do imperialismo do século XIX.

Ele afirmou que o primeiro grande passo para diminuir o terrorismo deveria ser rever as ocupações armadas nos países onde [as organizações terroristas] se encontram. “Porque, já há algum tempo, esses exércitos destinados a combater o terrorismo na verdade o nutrem”. Seus exemplos e críticas certeiras atestam a corrosão da democracia no mundo contemporâneo e a ameaça à cidadania. Governos (políticos tradicionais), grandes corporações e mídias, unidas  pelo cinismo e por interesses econômicos privados movem-se por interesses privados, não coletivos, e não precisam mais do consentimento dos cidadãos.

“(…)Meu último livro, Os inimigos íntimos da democracia, não oferece uma descrição de um modelo perfeito de democracia; ele descreve o modo pelo qual a ideia de democracia, tal como elaborada em seus primórdios, tem sido corrompida internamente.”

Questionava o projeto de impor o bem, seria arriscado porque levaria a declarar guerra a todos os que pensassem de forma diferente: “A natureza desse ideal nos coloca um problema: é suficiente dizer ‘liberdade’ pra que estejamos todos de acordo? Não sabemos nós que os tiranos do passado também se diziam partidários do bem e da liberdade? Podemos lutar pela liberdade negligenciando os ensinamentos da história? Podemos dizer que esses valores de liberdade são justos e verdadeiros em todas as sociedades? É preciso não conhecer a história para dizermos que sim.”

Por outro lado, alegrava-lhe a perspectiva de alteração no equilíbrio econômico mundial:

“Yo prefiero un mundo plural que un mundo unificado bajo la dominación de una potencia única. Pero este proceso no es una revolución, no caerá estrepitosamente el capitalismo, sino que será un proceso gradual que ocupará unos cuantos años. (…) La reacción del público español el día después del atentado de Atocha fue ejemplar. Tras ese atentado odioso, España no se sumergió en la islamofobia. Y sobre esa buena base, los intelectuales, los artistas, los productores de espectáculo, los periodistas deben influir en la conciencia y en el inconsciente de las poblaciones. Hoy más que nunca la elite política y cultural tiene una gran responsabilidad.”

El extranjero es un bien precioso, créame. Nos permite comprendernos mejor a nosotros mismos.

A alteridade foi uma constante em sua obra, e tornou-se um dos principais eixos de seu trabalho desde A Conquista da América (1982). Seria inadiável reconhecer que se há de aprender a conviver com os outros, fonte da qual emanam o bem e o mal.

A barbárie começa a partir do momento em que se trata aos outros como consideraríamos inaceitável que nos tratassem a nós mesmos…

Vale conhecer melhor:

Mort de Tzvetan Todorov, fantastique humaniste
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