Tradições de final de ano no sul da Itália

Tradições de final de ano no sul da Itália: gastronomia, feriados, religiosidade, comemorações.

as festividades começam cedo
versão em italiano

O período que vai de 24 de dezembro a 06 de janeiro caracteriza-se por uma série de tradições civis e religiosas no mundo inteiro e, dependendo das regiões geográficas, as maneiras utilizadas para se comemorar as festas de final de ano são completamente diferentes.Em algumas cidades (como Taranto, localizada na Puglia, a minha região de origem), as festividades começam já no dia 22 de novembro, no qual é celebrado o dia de Sta. Cecília, com música nas ruas e preparação das “pettole” (massa fermentada por muito tempo, preparada em bolinhas e consumida após ser frita).Na Itália, o período de Natal é no inverno e as temperaturas são mais ou menos rígidas conforme os anos e as regiões, inclusive no sul da Itália, onde podem ser negativas, mas nem sempre neva. Isso comporta rituais e hábitos gastronômicos específicos que se centram em torno da presença de produtos típicos da estação invernal, como, por exemplo, o mel, os cogumelos, o azeite extravirgem de oliva recém espremido, além do vincotto (vinho cozido), preparado a partir do mosto de uva ou figos.

As tradições religiosas também marcam o ritmo dos eventos: por exemplo, os que professam a fé cristã católica vão na igreja para participar da novena (nove encontros de oração na espera do Natal – nascimento de Jesus Cristo) e da missa do galo (missa noturna) de 24 de dezembro, que começa por volta das 23 horas, ao passo que existem aqueles que preferem seguir outras tradições, como encontrar amigos e parentes para a tradicional Ceia da véspera e jogar cartas. A troca dos presentes acontece, geralmente, à meia noite do dia 24 ou na manhã do dia 25.

decorações de Natal

As decorações de Natal nas casas e nas cidades são, na maioria das vezes, colocadas no início de dezembro (alguns preferem esperar até o dia 08 de dezembro, o dia da Imaculada Conceição, que é um feriado), e incluem, além das luzes e de vários enfeites, o presépio e/ou a árvore de Natal. Muitas cidades no sul da Itália são renomadas por suas exibições artísticas de presépios ou pelos presépios vivos. Esses últimos são realizados nas ruelas dos centros históricos ou em áreas especialmente características das cidades, as quais acolhem as reproduções de botteghe [pequenas lojas] artesãs do passado e de antigas atividades comerciais, além de recontarem a história da Natividade.

As feirinhas de Natal também são comuns em toda a Itália e, no sul, existem muitas célebres (como as de Nápoles e de Palermo, por exemplo). Dependendo da cidade, elas podem ser permanentes ou abertas somente no final de semana, com bancas repletas de produtos de confeitaria e outras iguarias típicas do período, além de ideias para presentes e peças do artesanato local. Além disso, algumas cidades grandes e pequenas comemoram a festa de Santa Lúcia no dia 13 de dezembro, preparando feirinhas de rua e seguindo a tradição dos presentes para as crianças e da comida deixada para agradecer a Santa antes de dormir.

Outras tradições importantes que reúnem amigos e parentes são as

“cartellate”, ou carteddate em dialeto

gastronômicas, envolvendo a preparação de pratos doces e salgados típicos de acordo com cada região (na verdade, elas podem variar de cidade a cidade). Entre esses pratos, pensando sobretudo nos doces, na Puglia é tradicional a preparação das “cartellate”, ou carteddate em dialeto (tiras de massa posicionadas em formato de rosa, depois fritas ou cozidas no forno e mergulhadas no vincotto, ou no mel ou no chocolate), foto à direita, bem como dos “pordedduzzi” – ou purcidduzzi -, foto à esquerda, ou seja, uma espécie de nhoques fritos e depois passados no mel, parecidos com os “struffoli” de Nápoles.

“pordedduzzi” – ou purcidduzzi

Não podemos esquecer das “pettole” mencionadas acima e, finalmente (embora as especialidades de Natal não acabem por aqui!), figos secos recheados e confeitaria à base de pasta reale, isto é, pasta de amêndoas.

As festividades natalinas estendem-se, na verdade, até dia 06 de janeiro, isto é, a solenidade da Epifania conforme a tradição cristã católica. De 24 de dezembro até 06 de janeiro, todas as escolas e muitos escritórios públicos ficam fechados (é importante lembrar que o dia 26 de dezembro, festa de Sto. Stefano, também é feriado em toda a Itália). Às noites, amigos e parentes se reúnem para jantar e jogar cartas ou outros jogos de tabuleiro. A seguir, no dia 31 de dezembro, todos se encontram para a tradicional Ceia do Réveillon (em italiano, Cenone ou Veglione), quando se espera a meia-noite e a chegada do Ano Novo com cotechino (embutido preparado à base de carne de porco), lentilhas, espumante, panettone (ou pandoro, doce parecido com o panettone, mas sem uva passa ou frutas cristalizadas!) e, obviamente, fogos de artifício (sem contar a tradição, ainda mantida em algumas cidades, de jogar pela sacada objetos velhos de qualquer tipo!).

Para os cristãos, a Epifania, que “leva embora todas as festas” (do ditado italiano “tutte le feste porta via”), corresponde à ‘manifestação’ ou ‘aparição” de Jesus ao mundo pagão, representado pelos Reis Magos, que vieram do longínquo Oriente para adorá-lo e prestar-lhe homenagem com presentes. Nesta data, comemora-se também, na Itália, a assim chamada “Festa della Befana”, em que a Befana é uma velhinha que voa com uma vassoura e enche as tradicionais meias de doces e balas para as crianças que se comportaram, e de cinzas e carvão para aquelas que foram ‘más’.

meias de doces penduradas nas lareiras

É comum ouvir algumas mães falarem aos seus filhos, brincando, “se não te comportares, a Befana vai te trazer carvão!”. Na verdade, na maioria dos casos, as meias (que são penduradas nas lareiras ou em outros lugares da casa) são enchidas com doces e um pouco de carvão de açúcar comestível, para deixar todos felizes! A lenda da Befana possui raízes antigas e várias interpretações. Uma dessas seria que os Reis Magos teriam perdido o caminho e solicitado auxílio para uma velhinha que, no começo, não quis ajudá-los, mas depois, arrependida, voltou a procurá-los e mais o menino Jesus com um saco cheio de doces para que a perdoassem.

Essas e outras tradições caracterizam a minha bela região e muitas outras regiões italianas no maravilhoso, e sempre um pouco mágico, período de Natal!

Sites de referência:
http://www.imperatoreblog.it/2013/12/18/i-presepi-viventi-piu-belli-del-sud-italia/
http://www.imperatoreblog.it/2015/11/26/i-5-mercatini-di-natale-piu-belli-del-sud-italia/
http://www.famigliacristiana.it/articolo/santa-lucia-le-spoglie-tornano-a-siracusa.aspx
https://www.pianetadonna.it/casa/food/dolci-natale-pugliesi.html
https://www.palermomania.it/news/societa-e-cultura/6-gennaio-lepifania-tutte-le-feste-porta-via-80104.html
https://www.taccuinistorici.it/ita/news/antica/usi---costumi/calza-della-befana.html
Autora: Patrizia Cavallo
Tradutora e Intérprete de Conferências (ITA-ENG-PT)
Doutoranda em Lexicografia, Terminologia e Tradução (UFRGS)
Adora ler, viajar, cozinhar e fazer esporte!
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