Tradutores são apaixonados por livros!

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entre as folhas
de um livro-de-reza
um amor-perfeito cai

Guimarães Rosa

 

29 de outubro é o Dia Nacional do Livro: homenagem ao dia em que foi fundada a Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, quando a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para cá.

A Biblioteca mais antiga do Brasil é a do Mosteiro de São Bento, fundada em 1581, em Salvador, Bahia. A Biblioteca Nacional, contudo, é a primeira oficial e pública. Foi trazida de Lisboa pela Corte portuguesa, a pedido de D. João, em 1808, e instalada em uma das salas do Hospital do Convento da Ordem Terceira do Carmo, contendo sessenta mil peças (livros, manuscritos, mapas, medalhas e estampas). À época, chamava-se Real Biblioteca.

No Brasil, o primeiro livro impresso foi Marília de Dirceu, do autor Tomás Antônio Gonzaga, em 1810.

Dos livros de ficção

Dentro de um tradutor de literatura mora um escritor. Ao recodificar um universo ficcional para outro idioma, nos sentimos um pouquinho ‘coautores’ da obra: a seleção do melhor vocábulo, a composição da frase parafraseando o estilo, a reconstrução imagética do ambiente, o tom de cada cena… o esforço para transcriar o conjunto único instaurado por uma narrativa é o estímulo assustador e fascinante que nos impele a mergulhar nessa atividade algo mágica. Semelhante ao processo de transcriação de uma linguagem para outra: de um romance para um filme, por exemplo; ou um poema para uma canção.

Por isso, em meio a tantos tipos relevantes e fundamentais de livros: científico, didático, guia, manual, biografia, memória, ensaio, história, antologia… os gêneros de ficção ocupam um lugar tão especial para muitos profissionais desse ofício.

Disse Noam Chomsky que “nós sempre vamos aprender mais sobre a vida humana e sobre personalidades a partir dos romances do que pela psicologia científica”[1]. Talvez essa irresistível necessidade, compulsão mesmo, de desvendar a alma humana explique essa nossa paixão, portanto!

[1] https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-44732228

Seguem alguns exemplos colhidos da nossa excelente equipe CAT do Catálogo de Tradutores.

Um livro e três paixões: “O Cinema – ou O Homem Imaginário”.  Ensaio antropológico de Edgar Morin.

Um dos livros que mais prazer me deu em traduzir. O cinema era uma das paixões. As outras eram a história da humanidade e a psicologia ou as emoções. Esse livro reuniu todas elas.
A tradução de um livro é sempre uma ponte estendida entre duas culturas. E quando abrange tantas coisas ao mesmo tempo, a emoção de traduzir é muito maior e mais gratificante, quer sejam ensaios, memórias, contos, romances… Quero escrever e traduzir sempre…

Luciano Loprete: tradutor e intérprete de francês e Italiano

Jenny Lawson é uma blogueira famosa que escreve com muito humor sobre situações surreais da vida dela, mas totalmente verdadeiras. Foi um desafio traduzir o humor tão particular dela, do idioma e da região dos EUA, mas eu ria enquanto traduzia e minha mãe pedia para ser a “revisora” não-oficial para poder sempre acompanhar e se divertir também.

 

Maya Johnson: tradutora e intérprete de inglês-português

Capitães da Areia, de Jorge Amado: um dos livros de que mais gostei, porque foi o meu primeiro contato mais próximo com essa outra realidade do nosso Brasil, de forma muito direta e realista.

Sylvie Giraud: tradutora e intérprete de Turco e Francês.


Assim, nosso ofício de tradutores é um comércio íntimo e constante com a vida, como diz Valery Larbaud; não é, de forma alguma, um jogo de paciência com palavras mortas e fichadas para sempre.

Tradutores todos temos uma tenda, longe da lenda longínqua e leviana. Negociamos, sobretudo, verbetes sobre tudo. Mergulhando em nosso âmago, brindamos vida a tudo o que vertemos, transbordamos, derramamos para transignificar.

Carlos Alberto Abelheira: tradutor e intérprete de espanhol e inglês

 

Traduzi “Biodiversity” de E. O. Wilson. Um clássico da biodiversidade. Adorei fazer parte da equipe de tradutores seniores, sermos assessorados por uma equipe de biólogos e termos descoberto algumas incoerências até nas nomenclaturas cientificas.

Não fosse por esse lado feio, “descobrir falhas”, foi por ter descoberto algumas espécies que ocorrem num continente inteiro mas no subcontinente é algo diferente “ma non troppo”.

Ricardo Silveira: tradutor e intérprete de inglês-português

 

Anatolii Izotov. “Cleopatra Hunting”. Tive o prazer de traduzir essa obra do mestre russo da literatura moderna ao inglês, que ainda vai ganhar uma tradução ao português um dia.

Esse livro, cheio de drama e romance, me impresionou muito, pois, além de ser uma obra de romance sincera e realista, contém também um elemento surreal, tanto no dramatismo das paisagens desertas da Ásia Central, como na própria trama que, apesar de contar uma história essencialmente mundana, atinge uma escala genuinamente cósmica com interações inesperadas entre o ser humano e a natureza, que parece estar sabendo de tudo que acontece em nossas almas.

Artemi Pugachov, tradutor de russo, inglês e português.

The Rent of Form: Architecture and Labor in the Digital Age

Como tradutora e arquiteta, foi um privilégio traduzir o livro de Pedro Arantes, cujo texto transmite grande entusiasmo pelo tema, e que investiga o cenário da arquitetura contemporânea, linkando seu sentido plástico, econômico e político e seu processo produtivo. O autor examina as condições de circulação, consumo e distribuição das mega-obras de arquitetura que tornaram possível a arquitetura do excesso e da exceção.

Adriana Kauffmann é tradutora e intérprete de português-inglês e formada em Arquitetura e Urbanismo.

Miguilim [Campo Geral] – Guimarães Rosa provoca um misto de emoções ao mergulhar na visão de uma criança desde a inocência (marcada pela admiração pelo irmãozinho Dito) à iniciação que encerra a narrativa: ao pôr os óculos 1a. vez, descobre que o mundo é bonito e parte do Mutum para o conhecer. Tão forte o ponto de vista da criança que em muitos momentos esquecemos que o narrador não é ele: exemplo primoroso de onisciente seletivo…

Mônica Peres: revisora de Português

 

 – ‘Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado... As pessoas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar da gente...’ –‘Mas, então, Dito, a gente mesmo é que tem culpa de tudo, de tudo que padece?’ –‘É!’ O Dito falava, depois ele mesmo se esquecia do que tinha falado; ele era como as outras pessoas. Mas Miguilim nunca se esquecia.
Já que comemoramos o livro hoje, que tal conhecer uma lista de 100 narrativas que ‘moldaram’ o mundo, influenciando fortemente nossa cultura? Arrisque um palpite para o campeão que encabeça a lista e confira!

Matéria original (inglês):      http://www.bbc.com/culture/story/20180521-the-100-stories-that-shaped-the-world

Republicação em português: https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/100-obras-literarias-que-mudaram-o-mundo-segundo-a-bbc/

Boas leituras!!!

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