Zygmunt Bauman – O sólido desmancha no ar…

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“Foi uma catástrofe arrastar a classe média à precariedade. O conflito não é mais entre classes, é de cada um com a sociedade”.

Autor de ‘Modernidade Líquida’,  o polonês residente em Londres, um dos críticos mais importantes do ‘ativismo de sofá’, empregava expressões como ‘precariado‘ (precário + proletariado) – uma classe sem consciência de classe, e interessava-se pelos movimentos do século XXI, atribuindo-lhes maior poder de protesto do que de solução para os atuais problemas: é mais fácil unir contra algo, do que a favor de propostas.

 

Zygmunt Bauman (19/11/1925, Poznań, Polônia – 9/01/2017, Leeds, Reino Unido) aos 91 anos, atuava lúcido, escrevia mais de uma obra por ano, e visitava o mundo, dialogando e apresentando suas ideias. Sofreu perseguição e teve que abandonar seu país por ser judeu (1968), mas a política de Israel também foi alvo de suas considerações críticas.

Denunciou o individualismo, as desigualdades, a concentração de riquezas e a fragilidade de nossa condição.

Apontou a liquidez dos relacionamentos – nada é sólido, nada é para durar, as redes sociais são uma armadilha, acreditamos que estamos nos relacionando, mas estamos em uma bolha na qual nos relacionamos apenas com quem pensa parecido; passamos por experiências, não nos aprofundamos e construímos relações. “Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”.

“Quando a humanidade perde o rumo, ocorrem tragédias                     como a que presenciamos…”             

Em The Messengers of Globalisation, que escreveu para a revista online europeia Eutopia Magazine, Bauman aborda a comoção ‘passageira’ diante da tragédia dos refugiados, a posição política europeia de fechamento que as empurra para a ilegalidade, e busca a causa dessa postura:

"A verdadeira culpa imperdoável das vítimas colaterais dessas forças, assim que se transformam em nômades sem lar, é que trazem à luz a realidade da (incurável?) fragilidade de nosso conforto e da segurança de nosso lugar no mundo.

(...) É um costume humano, humano demais, culpar e castigar os mensageiros pelo odioso conteúdo da mensagem que transmitem, em vez de responsabilizar as forças mundiais incompreensíveis, inescrutáveis, aterrorizantes e logicamente ressentidas que suspeitamos que são as culpadas do angustiante e humilhante sentimento de incerteza existencial que nos arrebata a confiança e causa estragos em nossos planos de vida.

(...) E quando a humanidade perde o rumo, ocorrem tragédias como a que presenciamos... É preciso se fazer a pergunta: quem é responsável pelo sangue destes nossos irmãos e irmãs? Ninguém! Esta é nossa resposta: não sou eu; não tenho nada que ver com isso; deve ser outra pessoa, mas é claro que não eu... Em nosso mundo, hoje, ninguém se sente responsável. Perdemos o sentido da responsabilidade por nossos irmãos e irmãs...A cultura do conforto, que nos faz pensar somente em nós mesmos, em bolhas de sabão que, por mais belas que sejam, são insubstanciais. Oferecem uma ilusão vã e passageira que desemboca na indiferença para com os outros, até na globalização da indiferença. Neste mundo globalizado, caímos na indiferença globalizada. Nós nos acostumamos ao sofrimento dos outros: não me afeta, não me preocupa, não é assunto meu”.

Um dos mais influentes observadores da realidade social e política, por décadas, apontou a superficialidade dominante no debate público. Criticou ferozmente a condução de Reagan e Thatcher nos anos 1980, que criou uma bolha que viria a estourar recentemente. Tido por muitos como pessimistra, conseguia expressar com clareza a perplexidade do cidadão de  um mundo que não oferece seguranças, mas que ainda não sabe como reagir a ele.

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